Decifrando a consultoria ambiental

Embora a atuação de uma consultoria ambiental não seja clara para muitos, elas vêm ganhando importância para a operação de empresas de grande porte no mercado global.

As consultorias focadas em neutralização de carbono não emplacaram como o esperado, mas mesmo assim, o setor, que possui diversas especializações, está crescendo. Segundo publicado pela revista Exame em janeiro, ele movimentou cerca de US$ 27,4 bilhões em 2012, com um aumento de 3,6% em relação ao ano anterior.

A dinâmica para esse crescimento vem sendo inevitável; quanto mais desenvolvidas as legislações ambientais e maior a preocupação pelo meio ambiente, mais demanda pelo setor.

Fui conversar com a diretora de operações da Draxos Ambiental, Catarina Peixoto,  para entender mais sobre a atuação de uma consultoria. O escritório da Draxos fica na Barra da Tijuca, e, fundada em 2011, a empresa mantém uma equipe interna multidisciplinar de seis pessoas (biólogos, geógrafos e engenheiros ambientais) e conta com o suporte de uma rede de consultores externos.

Catarina conversa com lideranças locais durante projeto. Foto: Draxos Ambiental.

Catarina conversa com lideranças locais durante projeto. Foto: Draxos Consultoria Ambiental.

Catarina começou me explicando que a Draxos atua em duas frentes de trabalho: uma se chama compliance, referindo-se ao cumprimento de requisitos legais que os orgãos ambientais impõem para o funcionamento das empresas clientes; e outra, direcionada aos que passaram desse cumprimento protocolar e pretendem incutir a variável ambiental em seu planejamento estratégico, engajando suas partes interessadas (público interno, fornecedores e sociedade em geral), no debate sobre a sustentabilidade.

Seus clientes variam desde empresas pertencentes à indústria de óleo e gás, que são sujeitas a um complexo processo de licenciamento, até shoppings centers que desejem melhorar seu desempenho ambiental, através de auditorias e planos de ação. A abrangência dos serviços também inclui a elaboração de programas de educação ambiental para projetos de infraestrutura, como a dragagem das lagoas de Jacarepaguá e linhas de transmissão de energia no interior do país.

A Draxos atua com frequência em ações de comunicação e responsabilidade socioambiental no pré-obras, que em muitos casos são requisitos legais para a empresa obter sua licença ambiental junto ao orgão responsável. Nessa fase inicial, a equipe  realiza um diagnóstico participativo junto às comunidades da chamada área de influência (as quais são afetadas pelo empreendimento) para caracterizar os impactos da obra ou projeto, e propõe quais medidas de controle devem ser implementadas para minimizá-los ou compensá-los.

Catarina explica os possíveis impactos no caso de uma obra de linha de transmissão:

“Durante a construção você pode ter proximidade do empreendimento com uma terra indígena ou com quilombos – comunidades vulneráveis por possuírem formas tradicionais de se relacionar com o ambiente - e precisar implementar no projeto um conjunto de medidas corretivas visando a preservação de seu modo de vida ou a minimização dos impactos que incidem sobre estes grupos sociais. No canteiros de obras, principalmente durante a construção da fundação para as torres, a escavação do solo pode  desestabilizar o terreno e agravar processos erosivos; além de remover a vegetação em determinados pontos.”

O impacto de uma obra de linha de transmissão requere ações locais para redução de danos. Nesse momento entra a consultoria ambiental. Foto: Márcio Martins.

O impacto da obra para instalar uma linha de transmissão requere ações locais para a redução de danos. Nesse momento entra a consultoria ambiental. Foto: Márcio Martins.

À partir daí o trabalho pode seguir duas vertentes práticas, o de trabalhar em conjunto à comunidade - criando canais de diálogo com as lideranças locais e fomentando ações participativas em escolas, por exemplo – ou manejar um impacto ambiental, por exemplo, através da realização de ações de replantio, dependendo da natureza do empreendimento, na margem do rio que beira o terreno da obra (a chamada faixa marginal de proteção que abrange a mata ciliar).

Em ambos os processos, o respaldo pelas leis ambientais é contínuo, tanto que a Draxos trabalha em parceria com escritórios de advocacia. “Não basta nos orientarmos somente pela ideologia, temos que entender os requisitos legais e saber em que nós estamos nos embasando, para argumentar e orientar o cliente”, diz Catarina.

Ela afirma que, infelizmente, existem muitas ações equivocadas nesse setor – como por exemplo o greenwashing, e uma empresa que busca credibilidade deve seguir os parâmetros estipulados por leis, como a Política Nacional de Educação Ambiental, Política Nacional de Meio Ambiente, Política Nacional de Resíduos Sólidos, resoluções do Conama e instruções normativas ou notas técnicas do Ibama, entre outras.

“Pelo feeling apenas, não conseguimos mostrar a uma empresa que distribuir brindes, fazer palestras ou gincanas não é educação ambiental, pois está longe de incorporar o viés crítico instituído pela legislação”, defende.

Até para negociar a duração da consultoria a legislação auxilia as consultorias, quando define parâmetros mínimos para a recuperação ambiental ou aprendizagem. Catarina explica que na prática, deve haver um processo de educação do próprio cliente:

“O empreendedor está sempre preocupado com o custo ambiental, e nós preocupados com a abrangência, resultado e duração dos projetos, por entender a importância do trabalho educativo. Cada empresa de consultoria tem seus valores, seu código de ética e negocia seus limites. Entendendo esse jogo nós sempre estabelecemos o mínimo aceitável para implementar um trabalho verdadeiro, que vá levar à comunidade um ganho real. Quando é uma ação continuada e não pontual deixa de ser uma campanha e se torna um programa com benefícios muito maiores para todos”.

A consultoria Draxos é especializada em projetos de "educomunicação" que frequentemente lida com crianças. Foto: Draxos Ambiental.

A consultoria Draxos é especializada em projetos de “educomunicação” nos quais frequentemente trabalha-se com os grupos diretamente afetados pelo empreendimento. Foto: Draxos Ambiental.

A coerência buscada pela Draxos deve ser perceptível também no produto final, muitas vezes resumido por fotos e depoimentos impressos em um material de apoio, como um calendário de mesa: “Elaboramos itens de comunicação capazes de trabalhar o pertencimento dos sujeitos nas ações educativas, e vincular o nome da empresa, pois obviamente elas querem veicular esse trabalho. Mas como elaborar um item de merchandising que faça sentido, e se conecte com aquela comunidade em questão?”

Ao final de cada campanha, a Draxos entrega um relatório do que foi realizado ao orgão ambiental responsável, para que ele avalie as ações, se posicione ou solicite que a empresa faça um pouco mais. Há orgãos ambientais em três níveis: federal, estadual e municipal. Todos eles participam da fiscalização e podem ceder a permissão para que a empresa cliente esteja ali. Qual orgão vai administrar esse processo depende da magnitude do impacto ambiental em jogo.

E falando de jogo, perguntei a ela se os eventos esportivos que o Brasil sediou, como a Copa, e ainda irá receber, como as Olimpíadas, aqueceram o mercado da consultoria. Mas a constatação foi algo desanimadora:

“Existem diversos interesses em jogo quando falamos destes mega projetos. Temos presenciado uma flexibilização inadmissível quanto às exigências ambientais para esses eventos, vide Campo de Golfe Olímpico. Ali é uma área de proteção ambiental (APA) que acabou sujeita às disputas econômicas e políticas. Os parâmetros da APA foram flexibilizados. Houve uma recategorização: aquele terreno saiu daquela classificação para que o empreendimento pudesse acontecer; como esse, tantos outros. Não estamos falando da conservação dos recursos ambientais, paisagísticos e estéticos, o que predomina é o capital e os grandes interesses, enquanto a questão ambiental permanece na periferia das discussões.”

Segundo Catarina, nem sempre os processos licitatórios para contratação das consultorias que atuarão nos grandes eventos são claros e transparentes, colocando em xeque os pressupostos da concorrência e da inserção de novas empresas no mercado. “Mas acreditamos que no mercado há espaço para todos e buscamos clientes com os quais possamos crescer juntos”, concluiu.