Anfitriões da mata

O turismo nas áreas verdes do Rio vem aumentando nos últimos anos, especialmente no Parque Nacional da Tijuca – conforme mostram os números no quadro abaixo, retirado do site O Eco.

A procura por visitas guiadas e eventos com profissionais da educação ambiental também está “aquecida”; um sinal de que os visitantes estão reconhecendo a importância da informação ecológica.

Ano Visitante
2007 885.367
2008 1.286.822
2009 1.913.617
2010 1.696.210
2011 2.274.498
2012 2.536.549
2013 2.899.972

Conversei com duas empresas que estão se beneficiando dessa tendência,  e trabalhando para que o “público da floresta” se torne mais informado e sensibilizado sobre a necessidade de conservação: o Instituto Moleque Mateiro, e a Oir Aventuras.

Aprendizado essencial

Especializado em educação ambiental, o Instituto Moleque Mateiro existe há nove anos e hoje faz parte da incubadora de empresas da PUC-Rio. O administrador do instituto, Francisco Schnoor me explicou como o negócio deles se estrutura para atingir objetivos maiores, ao facilitar às pessoas o contato com a natureza.

A equipe interna está dividida em três setores de atuação: o pedagógico, em parceria à escolas e universidades; o de organização de aniversários e passeios abertos, e o departamento de projetos corporativos.

A equipe do Instituto Moleque Mateiro, em seu ambiente de trabalho. Foto: Google Images.

A equipe do Instituto Moleque Mateiro, em seu ambiente de trabalho. Foto: IMM.

Este último foi implementado mais recentemente, e tem como objetivo estimular a auto-confiança e a criatividade de executivos e grupos empresariais, através de  passeios ecológicos ao PN da Tijuca e workshops.

Francisco explicou o potencial do método: “Uma trilha é um espaço onde às vezes existem dificuldades. Você vai passar por um buraco, subir uma ladeira. Nesses momentos estimulamos que os integrantes do grupo cooperem entre si. Nossa filosofia é que todos se tornem “moleques mateiros”; uma pessoa que está em contato constante com a natureza, alegre, de bom humor e pró-ativa, porque na natureza os imprevistos sempre acontecem”.

Segundo ele, a visão de mundo das empresas que contratam o Instituto é variada: há quem acredite no Marketing Verde, e queira apenas mostrar que sua empresa é sustentável, e há os  que realmente buscam algo efetivo para seus funcionários.

Francisco realiza dinâmica sobre confiança, onde ele guia um empresário que está de olhos fechados, na passagem sobre um tronco. Foto: Instituto Moleque Mateiro.

Francisco realiza dinâmica sobre “confiança”, onde ele guia um empresário que está de olhos fechados, na passagem sobre um tronco. Foto: IMM.

Mas de uma forma ou de outra, os resultados são geralmente positivos: “As empresas querem aumentar a produtividade de seus funcionários, e quando sua equipe está integrada, com a auto-estima boa, isso aumenta a qualidade do trabalho. Trabalhamos em conjunto aos setores de RH  nesses aspectos”.

Muita gente no Rio já deixou de fazer um passeio nos grandes parques – como também o da Pedra Branca e do Mendanha – por medo da violência e roubos. Mas Francisco  tranquiliza os trilheiros: “Houve um assalto na Floresta da Tijuca no ano passado inteiro. Se você vir o índice de  lá, em comparação ao resto da cidade, é irrisível. Assaltos você vê no largo da Carioca, na rua Jardim Botânico.”

A identificação com o verde

Quem coordena o setor pedagógico do Moleque Mateiro é o geógrafo Felipe Albino. Algumas aulas que ele ministra têm como pano de fundo as relações ecológicas, a fauna e a flora da Mata Atlântica, mas às vezes o tema é transdisciplinar, e envolve a questão dos resíduos e do gasto energético.

Ele me disse que: “Algo que perpassa por todos os projetos, é o estímulo à percepção de que somos parte integrante desse ambiente natural. E temos que ser cientes que somos transformadores para o mal e para o bem”.

Felipe mostra o mapa do Parque da Tijuca para um grupo de crianças. Foto: Google Images.

Felipe mostra o mapa do Parque da Tijuca para um grupo de crianças. Foto: IMM.

O coordenador tenta através dos encontros com crianças, em passeios escolares ou aniversários na floresta,  transmitir a ideia de que somos tão sensíveis como qualquer outra espécie no sistema:

“A mídia conduz a informação como se a natureza estivesse à dispor do homem para que este se desenvolva. Queremos ensinar o inverso dessa relação. Levantamos a importância de pequenos insetos que não vemos, como fundamentais à nossa sobrevivência, por exemplo.”

Quando perguntado sobre o constante aumento do fluxo de visitantes no PN da Tijuca, Felipe afirmou que hoje há mais competição pelos espaços de lazer, mas o saldo é positivo:

“Que bom que as pessoas estão ocupando o parque. Isso vai gerar mais segurança e mais estrutura. Por um lado a cachoeira está lotada, mas se as pessoas souberem usá-la, não podemos ser egoístas e pensar que é só para gente. Nós fazemos justamente um trabalho de ocupar os espaços dos parques. Todos são gratuitos, estão abertos de domingo a domingo e são uma outra alternativa ao lazer, que saem do circuito clube, play e shopping.”

Um ponto negativo da alta frequência na floresta, é a maior incidência de lixo deixado pelos visitantes. Felipe comentou esse aspecto:

“Na praia as pessoas esperam a Comlurb no final da tarde, e a floresta em geral não passa essa impressão. Mas quando já há acúmulo, elas acham que é isso mesmo e se sentem na liberdade de sujar.  É só comparar as cachoeiras do Alto da Boa Vista e as do Horto. Nesse último, elas estão completamente imundas; é guimba de cigarro para todo lado. Enquanto no Alto, por ter acesso mais difícil, é um espaço mais limpo e as pessoas se sentem inibidas de deixar seu lixo ali.”

Passeio de 4×4

Formado em turismo, Thiago Bomfim trabalhava como guia turístico freelancer e há quatro meses resolveu abrir a OIR Aventuras. A empresa tem um jipe próprio e é especializada em trilhas e passeios com equipamentos de escalada.  Thiago capta clientes por indicação, mas diz que o Facebook e o Instagram ajudam bastante no negócio.

Thiago dirige o jipe, que tem a caçamba aberta nas laterais facilita a visão da floresta durante os passeios. Foto: OIR Aventuras.

Thiago dirige o jipe, que tem a caçamba aberta nas laterais para facilitar a visão da floresta durante os passeios. Foto: OIR Aventuras.

“Foi uma motivação pessoal abrir a empresa, pois vi que eu poderia viver disso, com uma boa qualidade de vida”, conta ele, que atende também a muitos estrangeiros. “Temos qualidade de serviço. Depois que eu faço um passeio com a pessoa ela assimila bastante informação ambiental e histórica”.

Durante as caminhadas surgem assuntos como a importância das árvores, a filtragem do ar, os fungos e plantas medicinais. Avistar diferentes animais também acaba incluído nos passeios: macaco-prego, mico-estrela, quati, aranha, cobra, tucano, maritaca e o passarinho tiê-sangue, são os mais frequentes, segundo ele.

Os setores da também conhecida como Floresta da Tijuca. Foto: Google Images.

Os setores do parque mais importante do Rio, também conhecido como Floresta da Tijuca. Foto: pedal.com.br

Thiago diz conhecer todas as montanhas do Rio, e na Floresta da Tijuca, onde mais leva os clientes, está familiarizado com três dos quatro setores; A (Floresta da Tijuca ou Alto da Boa Vista), B (Serra da Carioca / Cristo e Horto), C (Gávea e Bonita). O setor menos visitado é o D (Covanca e Pretos Forros), que fica entre Jacarepaguá e o Méier.

Antes de iniciar o passeio, Thiago avisa para que cada um carregue seu lixo. O apelo já está na ponta da língua: “Pessoal não vamos jogar lixo na floresta, quem não tiver onde carregar eu coloco no bolso, não tem problema”. Como bom cuidador de seu ambiente de trabalho, Thiago diz que realmente costuma terminar os passeios com lixo no bolso; e a sensação de dever cumprido.

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