Filmambiente apresenta debate sobre o meio ambiente na comunicação

Aconteceu na última semana no Rio, o IV Festival Internacional do Audiovisual Ambiental – Filmambiente, que apresentou 62 documentários sobre questões ambientais, ativismo e sustentabilidade, em oito pontos na zona sul e zona norte da cidade. Além dos filmes, o evento também contou em sua programação com o painel de debate; Meio Ambiente: Evolução Temática e de Abordagem nos Últimos Vinte Anos.

Para discutir essa retrospectiva, um grupo interessante de painelistas foi reunido no espaço Oi Futuro Ipanema, mediados pelo colunista de sustentabilidade do jornal O Globo, Agostinho Vieira. Integraram a mesa:  a produtora de vídeos ambientais para televisão e diretora do instituto que leva seu nome,  Paula Saldanha (ou a “Shirley Temple” da comunicação ambiental no Brasil, segundo comparou Agostinho, em referência ao início jovem da carreira de Paula), Mario Branquinho; produtor do festival de cinema ambiental português Cine’Eco, que realizará a vigésima edição consecutiva do evento esse ano; e o economista e ecologista Sergio Besserman.

Foto: ANM.

Foto: ANM.

Antes das perguntas do público, cada um deles expôs suas impressões sobre a mudança no tom de abordagem e a importância que o assunto ambiental ganhou nas últimas décadas. Paula iniciou o debate, remetendo à 1979, quando realizou um de seus primeiros trabalhos sobre meio ambiente na TV, para o programa Globinho Repórter. Na época, a ditadura vigente censurou o título do capítulo: “A Amazônia é Nossa”. Paula conta que nesse período o clima das reportagens ambientais era de denúncia e ela e sua equipe eram vistos como “subversivos”.

Após o fim da repressão, eles começaram a ser procurados para falar de meio ambiente como política desenvolvimentista e os temas se voltaram para o manejo de terras indígenas e quilombolas, por exemplo. Ela apresentou o Fantástico de 1987 à 1992, e nesse período emplacou pautas ambientais, como a reportagem sobre a nascente mais remota do Rio Amazonas, no Peru. Após, ela iniciou uma carreira na TV Brasil com o programa Expedições, especializado em documentar biodiversidade e espaços naturais, e que completará vinte anos de veiculação em 2015. Tendo iniciado numa época em que o assunto ambiental tinha pouca visibilidade, hoje ela prevê um futuro muito diferente: “As pautas de sustentabilidade vão reger as relações internacionais, por conta das necessidades do mundo moderno.”

Foto: ANM.

Foto: ANM.

Em sua deixa, o português Mario Branquinho apontou os festivais de cinema ambiental como ferramentas de desenvolvimento cultural, e que contemplam abordagens pedagógicas e científicas. Segundo ele, os filmes ambientais “partilham preocupações”, através de uma linguagem que consolidou palavras-chave como: “denúncia”, “reflexão” e “solução”.

Do ponto de vista de Mario, o argumento dos filmes ambientais evoluiu do âmbito geral, ao tratarem de peculiaridades da Amazônia e dos índios, por exemplo, ao detalhe, quando passaram a abordar hábitos cotidianos, mais ou menos sustentáveis das pessoas comuns. A substituição de fitas VHS por tecnologias digitais desenvolveu a estética do cinema, e esse aperfeiçoamento contribui para que a ideia do “eco-chato” se dilua, já que as produções estão cada vez mais elaboradas.

Ele pregou que o desenvolvimento do cinema ambiental ajuda a que a informação de sustentabilidade não fique restrita à cúpula científica do conhecimento, e chegue ao grande público. Nesse aspecto, a rede global Green Film Network, da qual o Cine’Eco faz parte, facilita que os filmes sejam melhor distribuídos entre os festivais membros.

Já o economista Besserman fez uma releitura dos grandes períodos de transformação que a Terra já viveu e afirmou que “sustentabilidade é se conectar com a história”. Refletindo dessa forma, poderemos entender em que contexto surgimos e que novas condições de vida estamos criando.

Ele disse que a emergência ambiental vem para “reconstruir quem é o humano” e de que devemos assumir mudanças e custos em detrimento dos que vão nascer em trinta anos. Besserman ressaltou a evolução dos termos tratados pelas COP´s do clima, como “futuras gerações,” e reforçou a importância do tema das mudanças climáticas para a reestruturação de novas pautas políticas.

Ao final, o mediador Agostinho sugeriu que todos fechassem com uma afirmação positiva sobre o nosso presente. Besserman abriu os palpites: “Temos mais cultura e estamos menos violentos do que nunca”. Mario disse que estamos mais interessados em buscar a felicidade e isso é um símbolo de amadurecimento da sociedade. Já Paula pensou duas vezes sobre destacar um ponto positivo em meio à tantas divergências que diz perceber, mas não desistiu: “É visível como passamos a cuidar mais de nossas áreas naturais e populações.” Que assim seja.