Filme e debate na Crisantempo com Marina Silva e convidados

Nesse dia mundial do meio ambiente visitei a sala Crisantempo, na Vila Madalena, em São Paulo, para acompanhar uma atividade que me inspirou muito: a exibição do documentário “O Vale”, do jornalista Marcos Sá Correa e o cineasta João Moreira Salles, seguida de debate entre Moreira Salles, a ex-ministra do meio ambiente Marina Silva, o ex-secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente João Paulo Capobianco, e o economista “verde” Ricardo Abramovay.

O filme foi indicado por Marina para a exibição na sala, nessa data de reflexão sobre nossos ecossistemas. “O Vale” me pareceu  muito impactante e conta sobre o “estrago” que as grandes fazendas de café do século 19 fizeram  com o ambiente natural na região do Vale do Paraíba, após décadas de exploração intensiva.

O documentário foi produzido em 2000, e integrou uma série de seis capítulos que o canal GNT encomendou à um grupo de profissionais da Comunicação, em homenagem ao aniversário de 500 anos do descobrimento do Brasil.

O ex-secretário de meio ambiente João Paulo Capobianco fala no debate. Foto: Ana Alcântara.

O ex-secretário de meio ambiente João Paulo Capobianco falou sobre a drástica diminuição na área da Mata Atlântica nas últimas décadas. Foto: Ana Alcântara.

A relação entre o brasileiro e o meio ambiente foi um dos temas sugeridos pelo canal, e a dupla decidiu se apropriar dele, já que Correa era, na época, um dos jornalistas mais influentes na temática de sustentabilidade. Ao pensarem no argumento para o filme,  se deram conta de que não precisariam recorrer à tão documentada Amazônia para captar uma boa história.

Decidiram filmar a região entre Rio e São Paulo, onde há um verdadeiro deserto verde cortado pela Via Dutra, por onde os motoristas passam e já não se horrorizam mais.

O filme traz um conteúdo de arquivo muito interessante. Já nas primeiras cenas do Vale, tomado hoje pelo pasto seco, são narrados os inventários de três famílias riquíssimas da época feudal; pianos de cauda franceses, jogos de mesa e cadeiras de jacarandá, broches com brilhantes, lençóis de puro linho, quinhentos mil pés de café, quinhentos escravos..

A opulência das famílias dos barões do café reinava às custas das grandes colheitas que se espalhavam pela região, tomando o lugar de alqueires e mais alqueires de mata virgem. Outras parcelas de mata também eram retiradas para virar carvão.

Sala Crisantempo lotada no dia mundial do meio ambiente. Foto: Ana Alcântara.

Sala Crisantempo lotada no dia mundial do meio ambiente. Foto: Ana Alcântara.

Mas a exploração intensa da região começou a ser criticada já naquela época, por agrônomos, escritores, políticos ligados à agricultura e barões mais “conscientes”. O documentário narra escritos muito interessantes em português antigo, dessas personalidades prevendo que se não houvesse um cuidado maior com o uso intensivo da terra – como fazer rotação de culturas e curvas de nível – seus descendentes amargariam a herança de um solo cansado e estéril. E o documentário traz em imagens exatamente isso.

Hoje, os netos dos barões do café chegam a viver nas antigas casas feudais em escombros, e no limiar da pobreza, não conseguem cultivar nenhuma variedade. O gado criado não engorda, e quase não dá leite, já que até o capim que cresce ali é ruim, o conhecido “capim melado”.

Quilômetros de terreno erodido são mostrados por tomadas panorâmicas. E muitas nascentes de rios sumiram, ao serem expostas pelo desmatamento. A última cena do documentário aperta ainda mais o coração dos presentes:  um sobrevoo pela Amazônia, acima de mata verde e densa, e logo após, sobre um descampado de pasto sem fim.

Os debatedores mostraram sintonia de opiniões durante a conversa. Foto: Ana Alcântara.

Os debatedores mostraram sintonia de opiniões durante a conversa. Foto: Ana Alcântara.

Primeiro a falar no debate, Capobianco elogiou como o filme mostra sem gráficos, dados e números, a ação predatória que levou à destruição de 88% da Mata Atlântica. Ele informou que através de décadas de exploração sem descanso, o ecossistema se reduziu de 1 milhão e 200 mil quilômetros à 100 mil quilômetros.

Já Abramovay ressaltou que o filme sensibiliza através da poesia visual criada pela direção de fotografia, que enfoca a estética degradante da região e seus moradores , e disse ter ficado surpreso como muitos dos antepassados sabiam sobre essa tragédia anunciada.

Uma pessoa da plateia perguntou aos debatedores sobre como mudar a cabeça dessas pessoas que agridem a natureza, sendo que muitas vezes elas são pessoas boas. Moreira Salles respondeu, ressaltando a doçura de um dos personagens do filme – um ex-cortador de árvores para empresas de carvão no Vale do Paraíba: “Todas são boas e honradas pessoas e agem pensando em alimentar sua família. Mas estão destruindo. Poderiam ter aceitado outro emprego, assim como outros fizeram. Eles tem um nível de responsabilidade nisso sim. Em todas as esferas sociais existem responsáveis.”

Salles também concluiu que: “não basta falar, pois naquela época antiga eles já falavam sobre a destruição. Há que se ter vontade política”. E pareceu dar a  deixa para Marina contribuir com a mesa.

Marina se lembrou de mim, de quando nos encontramos em 2012 no Filmambiente, para a exibição do filme de abertura do festival, que ela participou. Foto: Ana Alcântara.

Para minha surpresa, Marina me reconheceu pela vez que nos encontramos em 2012, no Filmambiente, para a exibição do filme de abertura do festival, no qual ela fez parte. Foto: Ana Alcântara.

A palavra foi passada à Marina, que começou destacando sua aflição em ver as cenas finais de desmatamento na Amazônia. Ela disse ter pensado: “Agora eles se mudaram para lá e não sei se temos como vencer essa guerra”. Marina diz ter refletido sobre o conceito de sucesso recentemente, e fez um link com o filme: “O excesso de sucesso é a chave do fracasso. Quando estamos no sucesso queremos repetir a fórmula. Mas daí são gerados diversos tipos de insustentabilidade.”

Colocando um cunho político na discussão, ela compartilhou um dos ganhos de seu mandato com relação à conservação da Amazônia, mas lamentou que a medida já não terá continuidade por conta da alteração recente do Código Florestal. Para evitar retrocessos como esse, e também vislumbrar uma recuperação em locais como o Vale do Paraíba, Marina sugeriu:  “um maior envolvimento das pessoas locais para que a causa ganhe consistência (…) e uma agenda política que encare problemas estruturais com pactos de longo prazo.”

O evento todo foi bastante proveitoso, e uma frase final de Marina reforçou o potencial de sensibilização que tem eventos como esse: “A arte descauteriza mentes e corações”.