Seu cão e as rações transgênicas

Hoje será o primeiro dia em que nosso cachorro vai comer a ração Natural & Delicious da Farmina, sem misturarmos junto à marca anterior que utilizávamos. Para mim essa transição é uma pequena vitória, vou explicar porque:

Eu e o Gabriel, tínhamos um acordo, de que o Woodi se alimentaria da ração taxada como de melhor qualidade pelo mercado e veterinários, até que saísse da fase de filhote. E quando completasse ao redor de dez meses (como agora), iríamos introduzir a ração N&D por ela ser a única sem cereais transgênicos do mercado.

Woodi e sua mais nova opção de ração. Foto: ANM.

Woodi e sua mais nova ração. Foto: ANM.

No meio de 2013,  pesquisei o preço das rações, e percebi que todas apresentavam na embalagem o “T” amarelo, indicativo de ingredientes transgênicos. Isso se dá por conta do uso dos cereais trigo, milho ou soja modificados, na formulação. (fiz um post bem completo sobre o cenário atual das sementes transgênicas no Brasil, aqui.)

Evidências clínicas emergem aos poucos

As rações com componentes transgênicos começaram a ser lançadas no mercado americano na década de 1990, e posteriormente aqui no Brasil. Desde então, nosso cães são cobaias passivas desses experimentos, já que poucos estudos científicos aprofundados estão sendo ministrados, à respeito dos possíveis efeitos colaterais.  Mas as evidências estão surgindo.

pesquisa francesa que cito em post anterior, acompanhou em 2012 um grupo de ratos que se alimentou com sementes de milho da Monsanto por dois anos. A pesquisa chegou a ser refutada por um periódico científico grande, e causou polêmica na época, mas acredito que o estudo foi administrado de forma séria e chegou a resultados convincentes.

Eles observaram um aumento de duas a três vezes na incidência de tumores em fêmeas, e tumores mais precoces e maiores nos machos, em relação ao grupo que se alimentou de grãos tradicionais. Deficiências graves nos rins, fígado e sistema endócrino também foram identificadas no grupo tratado com os modificados.

O campo é "minado" em uma prateleria de loja com ração para cães. Foto: ANM.

O campo é “minado” com os “T´s” em uma prateleira de loja com ração para cães. Foto: ANM.

Os danos também foram atribuídos ao efeito residual do herbicida Roundup, usado complementarmente no cultivo de determinadas sementes. O objetivo da pesquisa foi levantar os riscos aos seres humanos devido às similaridades entre a nossa biologia e a dos ratos, considerando as diferentes expectativas de vida.

Com o assunto sobre esses efeitos nos cachorros em mente, tentei contato com o médico-cientista que encaminhou a pesquisa, Dr. Gilles-Eric Seralini, e perguntei sobre esse tópico. Ele me respondeu por email:   “As rações para cachorro podem seguramente estar contaminadas por OGM´s, pesticidas e outros contaminantes, e, de acordo com a literatura científica, promover tumores e doenças crônicas nos rins, entre outras. Eu indicaria as rações orgânicas.”

Achei válida a resposta, ainda que já saibamos com certeza que os OGM`s estão nas rações, e eu não conheça uma ração propriamente orgânica.

Em minha pesquisa à respeito de evidências, encontrei também o veterinário, autor de livros e consultor americano, Michael Fox, que afirma nesse artigo, que através da observação empírica, efeitos adversos muitos similares aos de animais tratados em testes como o da pesquisa francesa, são observados em animais de companhia alimentados com transgênicos.

Segundo o artigo, a modificação genética altera o conteúdo nutricional do grão, reduz a presença de fitonutrientes, eleva o nível de toxinas potenciais e propicia alterações no RNA graças à instabilidade genética das sementes.

Ele diz ter observado a redução de desordens relacionadas aos rins e trato digestivo quando cães em observação retiraram a dieta com grãos modificados. Por outro lado, ele diz que esses efeitos colaterais podem ser causados apenas pela alta porcentagem de grãos contida nas rações; o que historicamente não é o alimento natural para animais predominantemente carnívoros.

Ele conclui dizendo que não é possível culpar diretamente os OGM´s  pela alta incidência de câncer nos cães (segundo o livro “Why Worry about cancer in pets?”, 45% dos cães com mais de dez anos morrem da doença), pois existem inúmeros outros co-fatores ambientais que podem estimular essa tendência, como a presença dos químicos ftalatos e bisfenóis nos plásticos de potes de comida e brinquedos para cães, e dioxinas e PCB´s que são “farejados” na atmosfera.

O que seu cão está comendo? Certamente contém o milho transgênico da Monsanto...Foto: ANM.

O que seu cão está comendo? Possivelmente contém o milho transgênico da Monsanto…Foto: ANM.

O assunto no mercado 

Diante dessas informações, que estão disponíveis na Internet e em filmes especializados, fico surpresa com o pouco conhecimento ou mesmo interesse sobre esse tema pelos veterinários. Compreendo que o tema é novo, mas confesso que se eu fosse veterinária e presenciasse o “advento” da rotulação das rações como transgênicas, me interessaria fortemente em entender o assunto – pois teria consciência que afeta diretamente o meu paciente.

Desde que adquirimos o Woodi, já conversamos com três ou quatro veterinários sobre alimentação, e alguns até atestaram que dar comida de gente para os cães é mais saudável, mas não tinham opinião definida sobre as rações serem transgênicas.

Fora a falta de informação na grande mídia, parece que há um posicionamento derrotista  nesse meio sobre a qualidade das rações, no estilo: “é isso que temos para hoje”. E nenhum desses profissionais tinha opinião consistente sobre a N&D; ou não recomendavam aos clientes por ser uma ração nova.

A ração N&D não usa cereais em sua formulação para evitar beneficiar o mercado de transgênicos. Foto: ANM.

A ração N&D não usa cereais em sua formulação e evita beneficiar o mercado de transgênicos. Foto: ANM.

 Exercer a ética da sustentabilidade tem tudo a ver com consumo consciente, por isso dou meu voto à Farmina, que tem essa iniciativa de prover através da N&D:  “uma linha de produtos com elevados níveis de proteína de origem animal, baixa quantidade de carboidratos, sem ingredientes transgênicos e sem cereais; “grain free”, como explicado em seu site.

Outro diferencial é que essa variedade da N&D que compramos usa peixe e não carne. Os ingredientes principais de sua composição são bem interessantes: farinha de peixe de salmão, laranja, aloe vera, cúrcuma, psyllium e chá verde. Com relação ao BHA e  BHT também presentes, eles têm suas questões por serem conservantes químicos fortes, também usados em alimentos de pessoas, mas nenhum estudo de toxicidade os coloca como protagonistas, segundo minha pesquisa.

O preço da N&D é um dos maiores entre as “super premium”; os 2,5kg comprados custavam originalmente R$98,00 mas saíram à R$73,00 em uma promoção no Pet Shop (caro) onde comprei. O preço no mercado em geral está em uma média de R$80,00. Nesse caso, vale a máxima do gastar mais com qualidade hoje para economizar os possíveis custos altos com a saúde do bichinho no futuro. E ficar de consciência limpa.

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