Riqueza nas telas do Festival Ecofalante

Fui checar na última semana a 3ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental em São Paulo. Lá assisti a dez filmes – para minha agradável surpresa, muito bem produzidos, com ritmo, muitos dados.. – e presenciei dois debates. Tudo grátis, ou à apenas R$1, como no Centro Cultural São Paulo.

Achei que os sete cinemas escolhidos formaram um circuito bem cool,  e a maioria perto do metrô, como o Reserva Cultural, o Cine Livraria Cultura e o Cine Olido.

Cartaz do evento 2014. Fonte: Site Ecofalante.

Cartaz do evento 2014. Fonte: Site Ecofalante.

O grande lance de um evento como esse é a mensagem diferenciada de seus filmes, em sua maioria documentários, e como 90% destes não chegarão aos circuitos tradicionais, vou compartilhar as principais ideias inspiradoras que absorvi:

Somos todos Cobaias?
FRANÇA, 2012, 118′ Jean-Paul Jaud

Cartaz do filme. Fonte: thegreengeekette.fr.

Cartaz do filme. Fonte:thegreengeekette.fr.

O filme francês levanta a questão sobre estarmos sendo cobaias de dois grandes experimentos científicos globais: o consumo dos alimentos transgênicos e os efeitos dos vazamentos de radioatividade de usinas nucleares, como o de Fukushima.

O protagonista é o médico-cientista Gilles Séralini, que após efetuar uma pesquisa de dois anos, conseguiu provar que o consumo de ração transgênica a base de milho modificado, produziu tumores cancerígenos na maioria dos ratos testados.

Os efeitos, segundo o cientista, são reforçados pela ação do herbicida Round Up, que é pulverizado nos cultivos do milho transgênico utilizado no estudo.

Um argumento que dá força ao estudo pioneiro é de que as pesquisas financiadas pelas desenvolvedoras dos transgênicos (como a da própria Embrapa brasileira) duram apenas alguns meses e não cobrem um espaço de tempo representativo na vida dos ratos, para que os sintomas apareçam.

Séralini falou de três similaridades que os transgênicos e a radiação nuclear teriam:  a permanência de seus efeitos nos locais “afetados”,  a presença em nível global, e a característica bioacumulativa de seus malefícios;  que podem ser transmitidos de uma geração para outra.

Um panorama bem tenso, mas ver o nível de conscientização e luta dos franceses envolvidos nas pesquisas, tanto médicos, quanto população em geral, é inspirador.

Sinfonia do Solo
EUA, 2012, 104′ Deborah Koons Garcia

Esse é um filme simples e fantástico. Começa com uma aula de microbiologia do solo, onde as interações físico-químicas mais ricas entre bactérias, fungos, minerais e gases são explicadas. Passamos a entender cientificamente em que consiste uma verdadeira terra fértil.

Cartaz do filme. Fonte: Internet Movie Poster Awards.

Cartaz do filme. Fonte: Internet Movie Poster Awards.

Os diferentes tipos de solo são exemplificados, e passamos a entender porque um  solo mais rico em nutrientes, tem menos necessidade de água, pois absorve e distribui melhor o recurso.  E ainda goteja água ricamente mineralizada para os lençóis freáticos.

O filme mostra o exemplo do chef do restaurante novaiorquino Blue Hill, que leva à sério o sabor dos alimentos originados em um solo saudável.

O filme mostra também o estrago que as culturas de biodiesel vem fazendo no sul dos estados unidos. Estas utilizam altos níveis de fertilizante químico nitrogenado, o qual apenas 50% é absorvido pelas plantas e o resto escoa para rios e deságua no Golfo do México, criando “dead zones”, onde a vida não se desenvolve.

Sinfonia dos Solos nos deixa a impressão de que o solo é o recurso primário, e mais do que apenas um substrato, é um sistema complexo onde a vida floresce.  Nas últimas cenas um simpático estudioso  informa que a palavra Adão significa solo em hebraico antigo, e Eva, vida. E os dois juntos complementariam um ao outro.

Vozes da Transição
FRANÇA, 2011, 66′ Nils Aguilar

Esse filme é mais militante, e mostra pessoas e grupos dando exemplos de como estão atuando por uma sociedade voltada aos valores da sustentabilidade. Um dos embasamentos é de que a cultura da grande escala tem que acabar.

Cartaz do filme. Fonte: Monoduo.net

Cartaz do filme. Fonte: Monoduo.net

Os personagens fornecem antídotos para as tendências da escassez do petróleo e das mudanças climáticas, trazendo para mais perto de onde vivem, seus lugares de trabalho e de onde extraem sua comida.

São citadas algumas estatísticas para reforçar a necessidade de mudanças: o preço dos alimentos sobe com o preço do petróleo, graças à dependência dos combustíveis para transporte, e mesmo a composição de fertilizantes químicos. Nos EUA, foi provado que a duplicação do salário aumenta a pegada ecológica de 60% a 80%. O PIB cresce ao mesmo tempo em que os gastos com saúde e ambientais, enquanto o indicador de satisfação se mantém na mesma faixa.

O filme mostra que os cinturões de cultivo tem que estar mais próximos dos núcleos urbanos. Uma previsão diz que  se os caminhões pararem de circular por falta de combustível, em uma metrópole comum americana, os mercados estariam vazios em quatro dias.

Havana, em Cuba, é citada como exemplo, pois na época socialista mais ferrenha os habitantes investiram em hortas urbanas para garantirem uma maior variedade de alimentos para as comunidades. Hoje eles já produzem 70% do seu hortifruti.

Lamento dos Camponeses
LUXEMBURGO, 2011, 71′ Julie Schroell

O documentário de Julie, que conheci após a exibição, mostra como a população rural da pequena Luxemburgo diminuiu de 13.500 agricultores em 1950, para 1.500 hoje em dia. Nenhuma grande surpresa em um mundo cada vez mais moldado pelos êxodos rurais.

Agricultores questionam políticas de preços baixos e subsídios segundo interesses pela União Européia. Frame do filme.

Agricultores questionam políticas de preços baixos e subsídios segundo interesses da União Européia. Frame do filme.

O mérito é que o filme utiliza ótimas imagens de arquivo dos anos 50  e fornece muitos dados sobre a monetização do campo – movimento que empobreceu famílias camponesas tradicionais e enriqueceu políticos especuladores.

Os camponeses entrevistados lamentam o processo de perda de sentido de suas profissões. Hoje, o lucro cobre apenas a produção,  e o salário vem de incentivos fiscais, fruto do que interessa ao governo exportar naquele momento.

O estado exige alta produtividade a preços baixos, pois a população aumentou e os padrões de consumo mudaram: no passado os cidadãos do país gastavam de 50% a 60% de seus salários com comida, e hoje gastam de 10% a 15%.

Mas não se conseguiu essa redução de custos por nada; muitas técnicas artesanais de qualidade se perderam, e os animais sofrem com as pressões.  Falou-se do pouco apoio ao mercado orgânico local, e da receita de um pequeno fazendeiro resistente para que suas vacas forneçam carne de qualidade: feno fresco e pouco stress.

Mais infos sobre o 3º Ecofalante no próximo post..