Três filmaços para encerrar o festival

No último dia oficial da mostra Ecofalante assisti a dois filmes muito bons no Reserva Cultural, na sequência. Vale à pena comentar a mensagem deles:

Escala humana
Dinamarca, 2012, 83′ Andreas M. Dalsgaard

Cartaz do filme. Fonte: thehumanscale.dk

Fonte: thehumanscale.dk

O filme traz o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl como protagonista, que ficou conhecido mundialmente por desenvolver o plano urbanístico de Copenhagen, dando ênfase ao bem-estar humano na cidade.  Uma das lições do filme poderia ser “Primeiro nós moldamos a cidade, depois ela nos molda”.

Que cidade queremos nos tornar? Segundo o filme, as necessidades vitais do ser-humano – além de boa alimentação e exercícios – incluem participar do espaço público de uma cidade, conviver, gerar intimidade, frequentar praças e ruas para pedestres.

Gehl levantou a importância de a vida privada não se sobrepor à vida pública – de modo que possamos interagir mais com o entorno e não apenas sair de espaços fechados, geralmente pagos, para um carro, e vice-versa.

Os projetos de sua empresa, a Gehl Architects valorizam a espontaneidade do habitante, fator que irá incentivar os encontros e o fortalecimento de uma cultura local. Prédios muito altos, por exemplo, desestimulam que as pessoas saiam às ruas, nos breaks de trabalho, e dificultam a passagem de ventilação natural.

A Times Square de Nova York, que antes da intervenção de Gehl, não tinha a "square" mostrada na foto. Fonte: thehumanscale.dk

A Times Square de Nova York, que antes da intervenção de Gehl, basicamente não tinha a “square” mostrada na foto. Fonte: thehumanscale.dk

O ditado do meio corporativo; “Medimos o que é importante para nós”, é citado por Gehl, com o intuito de chamar a atenção para a importância da pesquisa sobre os hábitos dos habitantes locais, antes das “obras” acontecerem.

case interessantíssimo da cidade de Christchurch na Nova Zelândia, que teve seu centro destruído por um terremoto em 2011, foi mostrado. Eles teriam que demolir quase todos os prédios da área, e tinham a oportunidade de reconstruir algo muito melhor. Os urbanistas da prefeitura decidiram então ouvir os desejos dos habitantes, e reuniram 150 mil opiniões.

Centro de Christchurch após terremoto: oportunidade de reconstruir diferente. Fonte: blogs.telegraph.co.uk

Centro de Christchurch após terremoto: oportunidade de reconstruir diferente. Fonte: blogs.telegraph.co.uk

Após ser feito um resumo, eles chegaram a algumas conclusões: de que os moradores gostariam de mais ruas para pedestres, prédios com gabarito baixo, jardins, comércio misturado à residências e espaços amigáveis para cachorros. Então, o projeto foi mostrado à associação comercial local, que disse, para a surpresa dos urbanistas; “Não queremos essas regras”.

Logo, a prefeitura concluiu, que se a cidade se abrisse para o maior número de investimentos internacionais de grandes hotéis e empresas, a cidade “cresceria mais economicamente”. O destino de Christchurch ficou em aberto, para reflexão.

E ao redor do mundo, o projeto perfeito  não deixa de acontecer por falta de dinheiro: “As cidades ideais são muito mais baratas de construir do que imaginamos”, disse Gehl em certo ponto.

As antigas vielas improdutivas de Melbourne agora abrigam lojas e cafés. Fonte:theliving360.com

As antigas vielas improdutivas de Melbourne agora abrigam lojas e cafés. Fonte:theliving360.com

No caso do plano diretor da Gehl Architects aplicado em Melbourne, na Austrália, a convivência gerou renda local: em um bairro residencial, centenas de vielas entre prédios que acomodavam galões de lixo e gangues, tiveram suas laterais abertas e viraram charmosos corredores com cafés e vendas locais.

Síndrome de Veneza
Alemanha, 2012, 80′

Andreas Pichler

A maioria dos apaixonados pela Itália nem deve se dar conta de que Veneza vem sofrendo um processo de degradação “de dar dó”. E não é apenas pela crise econômica na Europa ou o processo de afundamento de estruturas não restauradas, somado ao aumento do nível do mar.

O turismo super intensivo que a pequena cidade vem recebendo há algumas décadas, tem feito com que a prefeitura local volte toda sua energia para o aumento desse índice de visitação, e não para os habitantes locais. Quem não trabalha para o turismo está enfrentando uma difícil maré.

O contraste entre a escala do transatlântico e  a rua para pedestres de Veneza denuncia o turismo massificado na ilha. Fonte: kviff.com

O contraste entre a escala do transatlântico e a rua para pedestres de Veneza denuncia o turismo massificado na ilha. Fonte: kviff.com

As instituições públicas estão à “Deus dará”. O correio antigo da cidade, um belíssimo prédio de vários andares foi vendido para o grupo Benetton. Um dos mercados de rua mais antigos do local, ameaça acabar pois não consegue competir preços com o comércio do continente.

O preço dos imóveis está cada vez mais alto, chegando a atingir valores de 10 a 20 mil euros por metro quadrado. Um dos personagens do filme é um corretor local, que desanimado, diz vender apartamentos decrépitos a preços exorbitantes para estrangeiros que vão duas ou três vezes para a cidade ao ano. Venezianos tradicionais deixam a ilha semanalmente, por falta de estrutura.

A Praça San Marcos sofre com as inundações sazonais, mas para o turismo, não tem tempo ruim. Fonte: kviff.com

A Praça San Marcos sofre com as inundações sazonais, mas para o turismo, não tem tempo ruim. Fonte: kviff.com

Nesse filme, vi similaridades entre Veneza e o processo de inflação de preços que o Rio de Janeiro vem vivendo. E não apenas isso, fica a reflexão à respeito da cultura original desses lugares. Veneza sempre foi uma cidade voltada às artes, à escala reduzida, ao luxo de não entremear-se por carros.

Hoje em dia recebe transatlânticos gigantescos em seu porto, e os tradicionais artesãos de máscaras e mimos jã estão de portas fechadas, pois as grandes marcas de moda italianas tomaram seu lugar.

Um gondoleiro ironizou que os turistas pensam que são figurantes em uma linda filmagem – mas que na verdade são tolos por não entenderem a real situação local. O filme faz uma previsão de que em 2030 não haverá mais nenhum morador original na ilha, mas as cenas finais de locais se manifestando com faixas por mais atenção do governo, deixa uma ponta de esperança pelo renascimento da cidade.

Ao terminar o circuito oficial do festival, o Centro Cultural São Paulo, ainda deu uma palhinha e continuou projetando o Ecofalante por mais três dias.  Eu dei uma descansada nos olhos, mas fui para lá numa tarde chuvosa, à tempo de pegar o último filme do terceiro dia. Valeu muito à pena:

A Promessa de Pandora
EUA, 2013, 89′

Robert Stone

Esse filme já tem seu mérito por ir contra a maré das verdades absolutas que por vezes reina entre os ambientalistas. Seus personagens principais, contam como passaram de militantes anti-energia nuclear, à ativistas em prol desse tipo de geração.

Fonte: statecinema.com.au

Fonte: statecinema.com.au

O personagem de destaque é Michael Shellenberger, presidente do interessante Breakthrough Institute, que trabalha em prol da sustentabilidade segundo um olhar pragmático e que valoriza o avanço da tecnologia como solução.

Shellenberger e alguns outros especialistas oferecem diversos argumentos, que nos fazem pensar se não vale a pena correr o risco – cada vez menor e menor – dos vazamentos nucleares, em prol de muitos outros benefícios.

Alguns dos argumentos expostos:

-”Meio dedo” de urânio gera a energia equivalente a algumas dezenas de barris de petróleo;

-Todo o lixo radioativo já gerado nos EUA até hoje, desde o meio da década de 70, cabe dentro de um estádio de futebol, e apenas a menor porcentagem dele é altamente tóxica.

- A energia nuclear é a geração que menos causa morte de trabalhadores. Comparar com os números da geração à carvão é pífio.

-É um tipo de geração não intermitente, como são a solar e a eólica.

-Há controvérsias nos números de mortos pela radiação do vazamento de Chernobyl, em 86. A ONU divulga que chegaram à um milhão, já os relatórios de saúde pública local, acusam sessenta e poucos óbitos. O fato dá margem à interpretações de que os efeitos da radiação não são tão devastadores quanto o pregado, e mortes por outras causas estariam sendo incluídas na lista.

Contador Geiger mede a radiação natural em diversas capitais, em cenas do filme. Fonte: nytimes.com

Contador Geiger mede a radiação natural em diversas capitais, em cenas do filme. Fonte: nytimes.com

- O filme mede a radiação natural emitida pelo solo em diversas metrópoles do mundo, e os indicadores chegam a bater níveis não recomendados pelos orgãos de saúde. Mas pouca gente se dá conta disso.

- Não será pela pausa na elaboração de usinas nucleares que se “esquecerá” da tecnologia para a elaboração de bombas nucleares. Esse risco apenas estará afastado pelas leis e convicções das sociedades.

Confesso que achei os argumentos convincentes, e já não vejo o brilhante James Lovelock com olhos estranhos por ele ser pró-nuclear. Mas nada como vislumbrar um mundo de energia descentralizada, que quando o sol é insuficiente, o cata-vento eólico de casa faz sua parte, e quando não, todos nós programamos um break para o ócio criativo ou a brincadeira com as crianças. Porque não?

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