Um sábado pelo meio ambiente da Barra

No dia 15 de fevereiro, muitos esforços se voltaram para a natureza da Barra da Tijuca. Não falo do crowd de surfistas que se exercitou nas ótimas ondas de um metro, mas do encontro semanal do grupo ambientalista Reservalores, e da manifestação organizada pela rede Meu Rio e voluntários, à favor das lagoas do bairro.

O guarda-sol do Reservalores armado na praia da Reserva. Foto: ANM.

O guarda-sol do Reservalores armado na praia da Reserva. Foto: ANM.

A Barra é caracterizada  por um lindo bioma de Mata Atlântica – com montanhas, lagoas, canais, remanescentes de dunas, mata de restinga e o mar – mas possui escassa cultura popular de preservação ambiental. Assim, duas ações desse tipo no bairro, ao ar livre, no mesmo dia, podem ser consideradas um ganho super positivo.

Os cerca de quinze eco-voluntários do Reservalores se reuniram às dez da manhã, na praia da Reserva, altura do condomínio Novo Leblon. O costume do grupo é realizar catações de micro-lixo nas diferentes “rotas” dos resíduos na areia, mas nesse sábado, o biólogo e organizador, Eduardo Lima Filho, o Dudu, explicou que o encontro seria voltado para conscientização dos banhistas na praia.

Dois convidados apareceram para reforçar o time e atrair o público; o shaper Thomas Scott,  e o biólogo Raphael da Costa. Thomas tem um trabalho super relevante com pranchas de surf que não usam blocos de poliuretano – um derivado “heavy metal” do petróleo.

Dudu, idealizador e um dos organizadores do grupo, e Thomas, mostrando o modelo menor de suas pranchas ecológicas. Foto: ANM

Dudu, idealizador e um dos organizadores do grupo, e Thomas, mostrando o modelo menor de suas pranchas ecológicas. Foto: ANM

Ele encontrou uma solução mais sustentável para o recheio da prancha, na manufatura da casca da planta Miriti, que conheceu em uma feira em Belém do Pará.  O material é rígido e leve, e atende às necessidades químicas específicas para se elaborar um bom shape.

Já o Raphael é especialista em animais silvestres e trouxe a coruja-de-igreja Merlin, que vem sendo amansada para protagonizar ações de sensibilização ambiental.

Rapahel teve a "ajuda" da coruja-de-igreja Merlin, para sensibilizar as crianças quanto ao lixo na praia, e os impactos na fauna local. Foto: ANM.

Raphael teve a “ajuda” de Merlin  para sensibilizar as crianças quanto ao lixo na praia, e seus impactos na fauna local. Foto: ANM.

O “stand” do Reservalores, mostrava em engradados diferentes tipos de micro-resíduos encontrados na areia – guimbas de cigarro, tampinhas, canudos, etc. Somados às explicações dos dois convidados e seus projetos, a aproximação de dezenas de banhistas foi garantida.

Os curiosos puderam ouvir sobre os impactos do lixo na praia, e detalhes sobre a elaboração das pranchas menos vinculadas à indústria do combustível fóssil.

Foto: ANM.

Foto: ANM.

Já no meio da tarde, às cinco horas, foi iniciada uma manifestação no deck da Joatinga, logo na entrada da Barra. O nome do encontro, “Acorde Perfeito Maior”, fazia um trocadilho sobre “acordar o prefeito” e os acordes produzidos pelo grupo de chorinho convidado, que tocou sentado em vasos sanitários.

A mobilização dos cerca de trinta presentes pleiteou o aumento da rede de saneamento básico no Rio, e a execução do projeto de dragagem das lagoas Tijuca, Jacarepaguá e Marapendi – parado na justiça e com entrega prometida para as Olimpíadas.

Manifestantes reunidos aos músicos geraram um impacto aos carros que entravam na Barra. Foto: ANM.

Manifestantes reunidos aos músicos geraram um impacto aos carros que entravam na Barra. Foto: ANM.

A passeata teve três principais organizadores: a idealizadora Vera Guimarães, que ganhou suporte da rede Meu Rio, da qual é voluntária,  e o biólogo Mario Moscatelli, que através de sua luta pública pelas lagoas, atraiu vários apoiadores.

Rafael, Mario e Vera, juntos nesse encontro pela conservação das lagoas da Barra. Foto: ANM.

Rafael, Mario e Vera, juntos nesse encontro pela conservação das lagoas da Barra. Foto: ANM.

Vera é clarinetista e se encarregou de trazer o grupo de amigos músicos que fez o agradável som ambiente do encontro.  Mas a causa era séria e ela explicou sua motivação:

“Vim morar na Barra em novembro, no Canal de Marapendi. Sou uma carioca que não conhecia esses manguezais e lagoas maravilhosas. Aqui não é só shopping e Avenida das Américas! Mas quando vi o trabalho do Moscatelli na internet, denunciando através de fotos essa fauna e flora sendo degradadas, fiquei muito triste. Resolvi falar com a equipe do Meu Rio para incluirmos a Barra no movimento deles por 100% de saneamento na cidade.”

Foto: ANM.

Foto: ANM.

A Rede Meu Rio foi criada a menos de um ano, com o objetivo de tornar os cariocas mais participativos quanto aos processos de decisão na cidade. Os cerca de 100 mil voluntários inscritos na rede, como a Vera, podem sugerir temas de passeatas.

A equipe fixa da rede, que conta com vinte pessoas, aprova as sugestões mais relevantes e estrutura o evento. Eles trabalham na divulgação, elaboração de faixas e placas e pedidos de autorização. Entregam ainda, abaixo-assinados e petições populares às autoridades responsáveis, para consolidarem a pressão política.

O coordenador de mobilizações, Rafael Rezende, estava no encontro e falou sobre a rede: “Trabalhamos para que o Rio seja uma cidade mais democrática, com um espaço público valorizado e uma cultura política forte.  Temos como princípio usar ações pacíficas, trazendo elementos criativos que chamem a atenção da mídia e do governo.”

Minha contribuição "gráfica" para a passeata: "Lagoa não é esgoto". Foto: ANM.

Minha contribuição “gráfica” para a passeata: “Lagoa não é esgoto”. Foto: ANM.

A gestão do meio natural carioca é apenas um dos temas em pauta na cartela de iniciativas da rede – que também trata, por exemplo, de segurança e educação – mas na opinião de Rafael, é assunto-chave:

” Uma cidade com essa riqueza tem que se mobilizar pelo seu meio ambiente, que no mundo todo está sendo prejudicado. Já fizemos ações com atletas olímpicos se mobilizando pelo saneamento  do Rio, que vai usar a própria água para os jogos, mas não está se preparando para isso. Nossa natureza é porta de entrada para o mundo.”

Na linha de frente das reivindicações, o biólogo Mario Moscatelli teve seu megafone como grande aliado nessa manifestação. O tom de urgência de seu discurso chegou aos ouvidos de motoristas que passavam em velocidade baixa por ali. Quando os ânimos acalmaram um pouco, Mario transmitiu seu conhecimento técnico sobre a situação das lagoas à alguns presentes.

Mario grita em seu megafone sobre as necessidades urgentes do ecossistema lagunar do Rio de Janeiro. Foto: Rô Figueiredo.

Mario grita em seu megafone sobre as necessidades urgentes do ecossistema lagunar do Rio de Janeiro. Foto: Rô Figueiredo.

Segundo ele, o tempo restante para recuperar o sistema lagunar,  sufocado pela proliferação de cianobactérias que se alimentam do esgoto jogado ali, está sendo desperdiçado intencionalmente pelas autoridades.

“Temos que estancar essa situação de briga de liminar, enquanto isso não for resolvido as obras não começam e vamos ficar com o abacaxi na mão.  Todo mundo sabe que esse sistema daqui precisa de trinta meses para ser recuperado, e para as Olimpíadas já faltam vinte e oito, ou seja, já ultrapassamos a linha do razoável”, disse.

Mario viu como positivo o fato de estarem presentes mais que o dobro de pessoas nesse evento, em relação à primeira mobilização que ele mesmo organizou pelas lagoas, no último dezembro. Segundo ele, o importante é continuar a luta:

“Precisamos pressionar de todas as formas, ir para a porta da Assembleia Legislativa do Rio, na sede do governador, para exigir o inicio imediato da recuperação. Isso era um compromisso do governo brasileiro com o Comitê Olímpico Nacional. Caso ele não faça, o comitê tem o direito, pelo contrato, de suspender os jogos.  A Vila Olímpica estará na beira da Lagoa de Jacarepaguá, que está podre. A Bahia de Guanabara e a Marina da Glória, que são as bases dos esportes náuticos, são outras latrinas”, concluiu.

O projeto de recuperação ambiental está orçado em 640 milhões de reais, que serão direcionados para a dragagem de quatro lagoas e o aumento da estrutura de canalização do quebra-mar.  Em uma cidade com autoridades regidas pela burocracia e muitas vezes blindadas por super-poderes só mesmo a mobilização da sociedade local para dar uma “forcinha” ao desenvolvimento sustentável…

Até a próxima!